A abertura do MOTO1000GP em Interlagos e a mensagem direto da pista !
Com olhar de piloto, Alex Schultz faz uma reflexão a respeito da motovelocidade nacional e formação de novo pilotos.
Por Marcio Viana
Por Marcio Viana
“Em um fim de semana de velocidade, emoção e grandes disputas, Interlagos também reacendeu uma reflexão urgente: a pista continua sendo o lugar certo para acelerar com consciência. “
Por Alex Schultz:
Piloto, instrutor de pilotagem, repórter de campo e comentarista no Moto1000GP
Durante muito tempo, a motocicleta fez parte da minha vida como extensão da minha liberdade. Ainda na adolescência, a moto já fazia parte da minha rotina de um jeito inseparável. Como paulistano, a motocicleta sempre foi minha primeira opção. Era mobilidade, liberdade, identidade. Eu andava de moto sem parar. A paixão pelas duas rodas já estava ali, pulsando forte, muito antes de eu entender que ela também poderia ser vivida como esporte.

Foto - Credito - Grelak Comunicação
Mas a vida avisa. E, às vezes, avisa mais de uma vez.
Depois de anos andando nas estradas, convivendo com riscos e com aquela sensação enganosa de que está tudo sob controle, em 2009 eu experimentei minha moto como esporte dentro de um autódromo. Foi um divisor de águas. Ali eu entendi, de verdade, que a adrenalina tinha um lugar certo para existir. De lá para cá, acelerei apenas nas pistas —autódromos e motódromos — porque descobri que velocidade e responsabilidade podem, sim, caminhar juntas.
Por isso, estar em Interlagos na abertura do MOTO1000GP teve para mim um significado muito maior do que apenas acompanhar o início de mais uma temporada. Claro que houve o espetáculo. Houve a força do palco, a energia do público, o ronco dos motores, o peso simbólico de Interlagos e a emoção de ver mais de 130 pilotos de 10 países dividindo a mesma pista. Houve também, para mim, uma descoberta especial: a de sentir novamente o Flow dentro do autódromo, mas agora de outro jeito.

Foto - Credito - Grelak Comunicação
Em 2026, vivo um ano sabático das competições. Continuo dando cursos personalizados de pilotagem e sigo profundamente conectado ao motociclismo, mas nesta etapa do MOTO1000GP encontrei uma nova forma de acelerar: pilotando o microfone. Estar ali entrevistando os melhores pilotos, comentando, sentindo o paddock por outro ângulo e traduzindo a emoção da pista para o público foi sensacional. Foi descobrir que ainda existe muita velocidade dentro de mim, mesmo sem o macacão e sem a moto.
Mas Interlagos também me fez lembrar de algo que carrego há muitos anos: a pista salva.
E eu não digo isso como discurso. Digo isso como alguém que sobreviveu.

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Em 2017, disputando o título brasileiro da categoria 600cc SuperSport em Interlagos, sofri um acidente gravíssimo. Só estou aqui para contar essa história porque aquilo aconteceu em um ambiente controlado. Em cerca de 30 segundos, uma UTI móvel já estava me atendendo e me
reanimando. Essa estrutura, essa resposta imediata, esse preparo para o pior fazem toda a diferença. Na pista, o risco existe — sempre vai existir —, mas existe também socorro, regra, fiscalização, equipe médica profissional, área de escape e uma rede inteira preparada para
responder quando o imprevisível acontece. Na estrada, quase nunca há essa mesma chance.

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Talvez por isso este fim de semana tenha trazido também uma reflexão tão necessária. O motociclismo sente perdas que doem fundo. Perdemos Gustavo Cicarelli na semana da corrida e, recentemente, também Gustavo Silveira. Dois pilotos experientes. Dois homens que
conheciam a motocicleta, a técnica e o risco. E ainda assim, como tantas vezes acontece fora das pistas, a vulnerabilidade permanece. Porque nas estradas nem sempre depende só da gente. Às vezes, o erro não é apenas nosso. Mas o erro do outro pode ser suficiente para tirar uma vida.

Essa é uma verdade dura. E justamente por ser dura, precisa ser dita.
Quem ama velocidade precisa entender que a pista continua sendo o lugar certo para acelerar.
A pista não é ausência de risco. Nunca será. Mas ela é ambiente seguro e controlado. Tem direção de prova, ambulância, equipe médica, equipamento adequado, briefing, regra, técnica, supervisão e respeito aos limites. É um espaço em que a adrenalina encontra contexto. Em que
o impulso vira esporte. Em que a paixão pela moto pode ser vivida com consciência.

Foto - Credito - Grelak Comunicação
Muitos acidentes ocorreram ao longo do fim de semana, como faz parte da natureza da competição. Mas, felizmente, todos puderam fazer a melhor volta de todas: a volta para casa!
E talvez seja justamente essa a mensagem que o motociclismo precisa reforçar com ainda mais clareza. Interlagos abriu o campeonato, mas também reacendeu uma consciência que não pode se perder no barulho dos motores: a estrada exige prudência absoluta e nunca estará sob
nosso controle total. A pista, por sua vez, é o ambiente em que a velocidade pode ser vivida com técnica, estrutura e responsabilidade.
Lá no começo da minha trajetória, eu escrevi e defendi uma ideia que continua mais atual do que nunca: #vemprapista

Foto - Credito - Grelak Comunicação
Hoje, depois de tudo o que vivi, do que perdi, do que aprendi e do que continuo construindo dentro do motociclismo, eu reafirmo essa mensagem com ainda mais convicção. Para quem sente adrenalina por velocidade, para quem ama motos e para quem busca emoção, o convite
precisa ser esse. Venha para a pista. Traga essa paixão para um ambiente preparado para recebê-la. Faça da velocidade uma experiência de consciência, não de improviso.
Em memória dos que partiram, em respeito aos que seguem acelerando e em defesa da vida,
essa talvez seja uma das mensagens mais importantes que o motociclismo pode repetir hoje:
"a pista é, e sempre será, o lugar certo para acelerar".
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